Infecção vaginal: tipos, sintomas e o que não fazer

Infecção vaginal é um nome genérico para quadros diferentes, com causas e tratamentos diferentes, e essa confusão leva ao maior problema prático do tema: a automedicação. Coceira não significa candidíase, corrimento não significa infecção, e usar o produto errado prolonga o desconforto e atrasa o diagnóstico.

Entender como os três quadros mais comuns se diferenciam, e o que não fazer diante deles, costuma poupar semanas de incômodo e idas desnecessárias à farmácia.

A microbiota vaginal e o papel dos lactobacilos

A vagina não é um ambiente estéril. Ela abriga uma comunidade de microrganismos na qual predominam os lactobacilos, bactérias que fermentam o glicogênio do epitélio e produzem ácido láctico. Esse ácido mantém o pH vaginal baixo, em torno de 3,8 a 4,5, e é ele que dificulta a proliferação de bactérias indesejadas. Os lactobacilos também produzem substâncias que competem com outros microrganismos.

Quase todos os quadros aqui começam com um desequilíbrio desse ecossistema. Quando os lactobacilos diminuem, o pH sobe e outras bactérias crescem. Quando o ambiente favorece fungos que já viviam ali, eles se multiplicam. Nem toda infecção vaginal vem de fora, e muitas são um desarranjo interno.

Desequilibram a microbiota: antibióticos, ducha vaginal, sabonete na região interna, roupa úmida por muito tempo, tecidos sintéticos, diabetes mal controlado, oscilações hormonais, tabagismo e queda de imunidade.

Corrimento fisiológico existe e não é doença

A vagina produz secreção para se limpar e se proteger. O corrimento fisiológico é claro ou esbranquiçado, sem odor desagradável, não causa coceira, ardor nem vermelhidão, e varia ao longo do ciclo: mais abundante e elástico perto da ovulação, mais espesso na segunda metade. Também aumenta na gestação e durante a excitação, quando o líquido tem outra origem, explicada em lubrificação feminina. Uma mancha clara na calcinha ao fim do dia, sem sintoma, é esperada.

Infecção vaginal: os três quadros mais comuns e como diferenciar

Candidíase vulvovaginal

Causada pelo crescimento excessivo de fungos do gênero Candida, que já fazem parte da flora de muitas mulheres. O sintoma dominante é a coceira, muitas vezes intensa, com vermelhidão e inchaço da vulva, ardor ao urinar quando a urina toca a pele irritada e desconforto na relação. O corrimento costuma ser branco, espesso e granuloso, sem odor forte. Não é considerada infecção sexualmente transmissível, embora possa haver irritação no parceiro.

Vaginose bacteriana

Não é uma infecção por um agente invasor, e sim um desequilíbrio: os lactobacilos diminuem e bactérias anaeróbias crescem. O sintoma mais característico é o odor desagradável, frequentemente descrito como de peixe, que piora depois da relação sexual e durante a menstruação porque o contato com substâncias alcalinas libera as aminas responsáveis pelo cheiro. O corrimento é acinzentado ou esbranquiçado, fino e homogêneo, e a coceira geralmente é discreta ou ausente. Também não é classificada como infecção sexualmente transmissível, embora a atividade sexual influencie o equilíbrio da microbiota.

Tricomoníase

Causada pelo protozoário Trichomonas vaginalis, e esta sim é uma infecção sexualmente transmissível. O corrimento tende a ser amarelado ou esverdeado, abundante, por vezes bolhoso, com odor desagradável, acompanhado de coceira, ardor, dor ao urinar e irritação visível da vulva. Pode ser assintomática, principalmente nos parceiros, o que favorece a transmissão silenciosa. Sendo IST, o rastreio de outras infecções e o tratamento das parcerias fazem parte da conduta.

Quadro Aspecto do corrimento Odor Coceira e irritação É IST?
Corrimento fisiológico Claro ou esbranquiçado, variando com o ciclo Ausente ou discreto, não desagradável Ausentes Não se aplica
Candidíase Branco, espesso, granuloso, tipo leite coalhado Sem odor forte Coceira intensa, vermelhidão e inchaço Não
Vaginose bacteriana Acinzentado ou esbranquiçado, fino e homogêneo Forte, tipo peixe, pior após a relação e na menstruação Discretas ou ausentes Não
Tricomoníase Amarelado ou esverdeado, abundante, às vezes bolhoso Desagradável Coceira, ardor e irritação evidentes Sim

Esses padrões orientam, mas não substituem o exame. Quadros se sobrepõem e sintomas parecidos aparecem em situações que não são infecção, como alergia a produtos, dermatites da vulva, atrofia do tecido por queda hormonal (tema de secura vaginal) e outras ISTs. O diagnóstico é feito em consulta, com exame ginecológico e, quando necessário, avaliação do conteúdo vaginal em laboratório.

O que não fazer

  • Ducha vaginal. Lavar o interior da vagina remove o fluido protetor e os lactobacilos, eleva o pH e favorece novo desequilíbrio. É uma prática que piora o que pretende resolver.
  • Sabonete íntimo em excesso ou aplicado por dentro. A higiene é externa, só da vulva, com água e sabonete suave. Esfregar, usar bucha ou lavar várias vezes ao dia agrava a irritação.
  • Antifúngico por conta própria a cada coceira. Boa parte dos episódios tratados como candidíase não é candidíase. O uso repetido sem diagnóstico irrita o tecido, mascara o quadro real e contribui para fungos menos sensíveis ao tratamento.
  • Tratar pelo diagnóstico da amiga ou da internet. Sintomas iguais não significam causa igual, e a receita que funcionou para outra pessoa pode ser a errada para você.
  • Interromper o tratamento quando o sintoma melhora. O alívio costuma vir antes do fim do ciclo prescrito, e parar no meio favorece recidiva.
  • Disfarçar odor com desodorante íntimo, perfume, talco ou absorvente perfumado. Odor persistente é sinal clínico e precisa de diagnóstico.
  • Receitas caseiras aplicadas na vagina, de iogurte a bicarbonato, vinagre, alho ou óleos. Não têm respaldo, podem queimar a mucosa e introduzir outros microrganismos.

Por que tratar a infecção errada piora o quadro

Candidíase e vaginose têm origens opostas no mesmo ambiente. A candidíase é crescimento de fungo, combatida por antifúngicos, que não agem sobre bactérias. A vaginose é excesso de bactérias anaeróbias com queda de lactobacilos, e exige tratamento antibacteriano. Antifúngico em quem tem vaginose não trata a causa e mantém o desequilíbrio, com semanas de odor e corrimento. Na direção oposta, antibacterianos podem reduzir ainda mais os lactobacilos e abrir espaço para fungo, o que explica a candidíase depois de um antibiótico. A classe, a via e a duração são sempre definidas pelo médico após o diagnóstico.

O que de fato ajuda na prevenção

  • Higiene externa simples, com água e sabonete suave, uma a duas vezes ao dia, secando bem a região.
  • Calcinha de algodão, troca diária e evitar ficar horas com biquíni, maiô ou roupa de treino úmidos.
  • Preservativo nas relações, que previne as ISTs e, no caso da tricomoníase, é a medida mais efetiva.
  • Trocar absorvente, coletor ou calcinha absorvente em intervalos regulares durante a menstruação.
  • Controle de condições que favorecem recidiva, como diabetes, e cuidado com antibiótico sem indicação.
  • Consulta ginecológica de rotina, que identifica quadros assintomáticos. O que esperar dela está em quando consultar a ginecologista.

Sobre probióticos e produtos que prometem reequilibrar a microbiota, a evidência ainda é heterogênea e o uso precisa ser avaliado individualmente.

Quando procurar atendimento sem demora

Marque avaliação com rapidez, ou busque urgência, se houver dor pélvica, febre, sangramento fora do período menstrual, feridas, bolhas ou úlceras na região, dificuldade de urinar, ou corrimento com odor muito forte e piora rápida. Gestantes com qualquer suspeita devem ser avaliadas sem esperar, porque algumas condições se associam a complicações na gravidez. Sintomas que voltam quatro vezes ou mais em um ano pedem investigação mais ampla, e não outro tratamento por conta própria.

Em Araçatuba, a Dra. Mariana Cavalari, ginecologista com atuação em estética íntima, avalia essas queixas em consulta. Diagnóstico e conduta dependem de exame presencial, e este conteúdo tem finalidade informativa.

Pontos-chave

  • A microbiota vaginal é dominada por lactobacilos, que mantêm o pH ácido; a maioria dos quadros começa com o desequilíbrio desse ambiente.
  • Corrimento claro ou esbranquiçado, sem odor desagradável e sem coceira, é fisiológico e varia ao longo do ciclo.
  • Candidíase traz coceira intensa e corrimento branco granuloso; vaginose traz odor forte com corrimento fino acinzentado; tricomoníase é IST e traz corrimento amarelado ou esverdeado com irritação.
  • Antifúngico não trata vaginose e antibacteriano pode favorecer candidíase, por isso tratar o quadro errado prolonga o problema.
  • Ducha vaginal, sabonete em excesso, automedicação a cada coceira e receitas caseiras pioram o desequilíbrio.
  • Dor pélvica, febre, sangramento, feridas, gestação e episódios recorrentes pedem avaliação sem demora.

Leia também

Perguntas frequentes

Todo corrimento é infecção?

Não. O corrimento fisiológico é claro ou esbranquiçado, sem odor desagradável e sem coceira, e muda de aspecto ao longo do ciclo. O que sugere infecção é a associação com odor forte, coceira, ardor, vermelhidão, mudança de cor para amarelado ou esverdeado ou aumento abrupto do volume.

Candidíase é transmitida pelo parceiro?

Não é classificada como infecção sexualmente transmissível, porque o fungo já costuma habitar a região e o quadro surge por desequilíbrio. A relação pode irritar o tecido inflamado, e o parceiro pode ter vermelhidão e coceira, caso em que também deve ser avaliado.

Dá para diferenciar candidíase de vaginose em casa?

O padrão de sintomas ajuda a suspeitar, com coceira intensa de um lado e odor forte do outro, mas não fecha diagnóstico: os quadros podem coexistir e outras condições imitam os dois. Como o tratamento é diferente, o palpite é o que não se pode arriscar.

Por que a infecção volta sempre?

As causas mais comuns de recidiva são diagnóstico inicial impreciso, tratamento interrompido antes do fim, manutenção dos hábitos que desequilibram a microbiota, condições associadas como diabetes e, no caso de IST, parceria não tratada. Episódios frequentes mudam a conduta e precisam de avaliação específica.

Posso ter relação durante o tratamento?

Depende do quadro e do que foi prescrito, então combine na consulta. De forma geral, o atrito aumenta o desconforto no tecido inflamado, e nos casos de IST a parceria precisa ser tratada para evitar reinfecção.

Compartilhe:
Facebook
Twitter
LinkedIn
Email