A maioria dos cistos no ovário encontrados em mulheres em idade fértil é funcional: eles se formam durante o ciclo menstrual e costumam desaparecer sozinhos em algumas semanas ou poucos meses, sem cirurgia. A operação passa a ser considerada quando o cisto não regride, cresce, tem características suspeitas no ultrassom, causa sintomas importantes ou provoca uma complicação, como torção ou ruptura com sangramento.

Receber um laudo com a palavra “cisto” costuma assustar, mas o termo descreve apenas uma estrutura com conteúdo líquido ou semissólido. O que define a conduta é o tipo de cisto, o aspecto no exame, a idade da mulher, os sintomas e a evolução ao longo do tempo.
Cistos funcionais: os mais comuns e passageiros
Todo mês, o ovário prepara um folículo que vai liberar o óvulo. Depois da ovulação, esse folículo se transforma no corpo lúteo, que produz progesterona. Às vezes, uma dessas estruturas acumula líquido e aumenta de tamanho, formando um cisto funcional. Os dois tipos principais são:
- Cisto folicular: o folículo não se rompe na ovulação e continua crescendo por um tempo.
- Cisto de corpo lúteo: o corpo lúteo se enche de líquido ou de sangue depois da ovulação. Quando há sangue, o laudo pode descrever um cisto hemorrágico, que também costuma regredir.
Esses cistos fazem parte do funcionamento normal do ovário e, em geral, não causam sintomas. Quando causam, o mais comum é um desconforto ou dor de um lado do baixo ventre, sensação de peso ou alteração no ciclo. Por isso, diante de um cisto com aspecto funcional, a conduta habitual é repetir o ultrassom depois de um ou alguns ciclos para confirmar que ele diminuiu ou sumiu.
Cistos funcionais são pouco esperados depois da menopausa, já que a ovulação deixa de acontecer. Nessa fase, qualquer cisto merece uma avaliação mais cuidadosa, ainda que muitos sejam simples e benignos.
Outros tipos de cisto e como aparecem no ultrassom
Nem todo cisto vem do ciclo menstrual. Alguns têm outra origem e não costumam desaparecer sozinhos:
- Endometrioma: cisto relacionado à endometriose, com conteúdo espesso e escuro, às vezes chamado de “cisto de chocolate”. No ultrassom, tem um aspecto característico, com conteúdo homogêneo e denso. Veja mais sobre o que é o endometrioma e como ele é conduzido.
- Teratoma maduro (cisto dermoide): tumor benigno que pode conter gordura, cabelo e outros tecidos. Tem aparência típica no exame e tende a crescer lentamente.
- Cistoadenomas: tumores geralmente benignos, que podem atingir tamanhos maiores e ter conteúdo seroso ou mucinoso.
- Ovários com múltiplos folículos pequenos, típicos da síndrome dos ovários policísticos, que não são cistos no sentido de uma lesão a ser retirada.
O ultrassom transvaginal é o principal exame para diferenciar esses tipos. O laudo costuma descrever tamanho, paredes, conteúdo, presença de septos (divisões internas), partes sólidas e fluxo de sangue avaliado pelo Doppler. Muitos serviços utilizam sistemas padronizados de classificação de risco, como o O-RADS, que ajudam a médica a decidir entre acompanhar ou investigar mais.
Características que pedem investigação
Alguns achados no ultrassom não significam câncer, mas indicam que o cisto precisa de uma avaliação mais aprofundada:
- Componentes sólidos ou projeções na parede interna.
- Septos grossos ou irregulares.
- Fluxo de sangue aumentado nas partes sólidas ao Doppler.
- Crescimento entre um exame e outro, ou cisto que persiste por vários ciclos.
- Tamanho grande.
- Presença de líquido livre em quantidade no abdome.
- Cisto complexo depois da menopausa.
Nesses casos, a médica pode pedir ressonância magnética da pelve e exames de sangue, como o CA-125. Esse marcador precisa ser interpretado com cuidado: ele pode estar elevado em situações benignas, como endometriose, miomas, inflamações e até durante a menstruação, e pode ser normal em alguns tumores. Por isso, ele não serve como exame isolado de rastreamento.
O histórico familiar também entra na conta. Casos de câncer de ovário ou de mama em parentes próximos podem mudar a forma de acompanhar o cisto.
Acompanhamento ou cirurgia: o que define a conduta
Não existe um único tamanho a partir do qual todo cisto deve ser operado. A decisão é feita com base em um conjunto de fatores:
- Tipo provável do cisto: cistos funcionais e simples, na maioria das vezes, são apenas acompanhados.
- Persistência e crescimento ao longo de exames seriados.
- Sintomas: dor frequente, pressão na bexiga ou no intestino e desconforto que atrapalha a rotina.
- Risco de complicações, como torção, que é maior em cistos de tamanho intermediário a grande.
- Idade e fase da vida, incluindo a pós-menopausa.
- Desejo de engravidar, já que cirurgias nos ovários podem reduzir a reserva de óvulos. Esse ponto é especialmente discutido nos endometriomas.
Quando a cirurgia é indicada, ela costuma ser feita por videolaparoscopia, com o objetivo de retirar o cisto preservando o máximo possível do tecido saudável do ovário. A retirada do ovário inteiro é reservada para situações específicas.
O anticoncepcional hormonal pode ser usado para reduzir a formação de novos cistos funcionais em mulheres que os têm com frequência, mas ele não “dissolve” um cisto já existente.
Sinais de emergência, como torção
Algumas complicações exigem atendimento imediato em pronto-socorro:
- Torção ovariana: o ovário gira sobre o próprio eixo e interrompe a circulação. Causa dor súbita e intensa em um lado do baixo ventre, frequentemente acompanhada de náuseas e vômitos. É uma urgência, porque a demora pode comprometer o ovário.
- Ruptura do cisto com sangramento: dor forte de início repentino, que pode vir com tontura, palidez, desmaio ou queda de pressão.
- Febre com dor pélvica, que pode indicar infecção.
Dor persistente na pelve sem esses sinais também merece avaliação, mesmo que não seja urgente. Este conteúdo sobre dor pélvica crônica ajuda a entender outras causas possíveis.
Perguntas frequentes
Cisto no ovário impede de engravidar?
Cistos funcionais, em geral, não impedem. Endometriomas e cirurgias repetidas nos ovários podem interferir na fertilidade, e por isso o planejamento deve ser conversado com a médica.
Cisto no ovário vira câncer?
A grande maioria dos cistos é benigna, principalmente em mulheres jovens. Os achados do ultrassom e a evolução ao longo do tempo ajudam a identificar os poucos casos que precisam de investigação.
Preciso fazer repouso ou evitar exercício?
Na maioria dos casos, não. Em cistos maiores, a médica pode orientar evitar impactos fortes pelo risco de torção. A orientação é individual.
Em quanto tempo devo repetir o ultrassom?
Para cistos com aspecto funcional, o controle costuma ser feito depois de um ou alguns ciclos, de preferência na primeira metade do ciclo. O intervalo exato é definido pela médica.
Acompanhamento com calma e informação
Um cisto no ovário, na maior parte das vezes, é um achado que pede apenas acompanhamento. Levar o laudo e os exames anteriores para a consulta permite comparar a evolução e decidir a conduta de forma individual, sem decisões precipitadas.
A Dra. Mariana Cavalari, ginecologista formada pela FAMERP, atende em Araçatuba (SP). Para avaliar o seu exame, agende uma consulta pela página de contato.